Mamãe era carinhosa, mas não deixava barato quaisquer malcriações dos filhos. Papai trabalhava dia e noite para conseguir algum dinheiro para alimentar seus filhos. Dos filhos, o mais velho era exemplar, sempre com as melhores notas e ajudando a Mamãe a cuidar de seus irmãozinhos. O segundo era hiperativo, o terror da vizinhança. Muita vezes fora taxado de vagabundo, mas provou o contrário. O terceiro, o gordinho. Cantava muito bem e tinha uma personalidade diferente dos demais. O mais novo era raquítico, com grandes olhos. Tinha muitos amigos, ao contrário do terceiro.
A rotina dessa família não mudou por tempos, eles pareciam felizes. Até que um dia um impecilho surgiu. Mamãe havia parido uma garotinha. Isso era tudo que Papai queria. Entretanto, algo parecia ter dado errado.
Ao invés de ser uma menininha agradável, ela tinha trejeitos masculinos, poucos amigos (pra não dizer nulos). Aos poucos, a infelicidade parecia crescer, junto com ela.
O pequeno demônio rebelde está se tornando uma mulher. E arece que, quanto mais ela cresce, mais as pessoas ao seu redor são infelizes. Agora, não é a fome que assola aquele lar, mas as palavras rudes, descabidas.
A meio-mulher não parecia ter nascido na família certa. Com certeza as coisas seriam mais felizes se naquele domingo de Páscoa Mamãe não tivesse essa criança. Certamente.
Talvez essa história tenha um fim em breve. Talvez não. Mas ela se tornará uma mulher sem ter experimentado um lugar só seu.
(e Mamãe continuará a amando, mesmo sabendo que tem algo errado. Porquê ela é a Mamãe, esqueceram?)
Marcadores: verdades